Capa PT: a construção de uma utopia

PT: a construção de uma utopia

“primeiro é preciso mudar o mundo, depois é preciso mudar o mundo mudado”


Contar uma história tão intensa quanto rica em acontecimentos num espaço exíguo quanto este que me foi oferecido pela direção do PT é, por natureza e definição, bastante temerário. Mas devo admitir, igualmente instigante dada a trajetória peculiar e vitoriosa do PT do Acre.

Pode-se construir uma narrativa fiel do que fora a construção do PT de várias formas. A que escolhi envolve atores individuais e coletivos responsáveis por tamanha ousadia.

Ao final da década de 1970, concomitante aos acontecimentos do ABC em São Paulo, os seringueiros do Acre protagonizavam uma resistência ao projeto pecuário/ madeireiro concebido e implantado pelo governador Wanderlei Dantas. Nos municípios de Brasiléia e Xapuri ocorrem as maiores mobilizações e enfrentamentos.

A criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) por Padres e missionários da igreja católica signatários das teses da Teologia da Libertação tendo à frente Nilson Mourão, culminando no processo de organização dos seringueiros em sindicatos rurais (STRs) em parceria com a CONTAG (Confederação Nacional dos trabalhadores da Agricultura) liderados por João Maia configuraram as vertentes que explicam a presença do PT na zona rural do Estado e na periferia de Rio Branco. Nas cidades, principalmente na capital, a construção do PT se deu principalmente na UFAC através do Movimento Estudantil, ali as correntes mais ideológicas PRC (Partido Revolucionário Comunista) e LIBELU (Liberdade e Luta) formaram uma geração de quadros cuja trajetória, em largar medida, legou ao PT parte da qualidade que o fez partido hegemônico do Acre nos dias atuais.

Marina, Binho, Toinho, Carioca, Fábio, Cacá, Monteiro, Naluh, Marcos Afonso (ex-PCdoB), Antonio Manoel, Tácio de Brito, Aníbal, Júlia Feitosa, Marcos Montesuma, Simony, Patrícia e tantos outros… São alguns dos nomes da imensa constelação revelada pelo PT no Movimento Estudantil. Vale assinalar que o movimento sindical urbano, sobretudo no setor público, foi beneficiário no momento subseqüente da presença de boa parte dos militantes acima arrolados.

Com a criação da CUT e o crescimento do Movimento Sindical urbano, o PT passou a ter uma grande audiência no seio dos servidores públicos, a mais organizada categoria de trabalhadores do Acre. No entanto, por conta e risco ouso afirmar que a marca indelével do PT deriva de sua inserção na luta dos seringueiros. Não só pelas lágrimas, suor e sangue derramados, que por si indicam a radicalidade da luta, como a simbologia daí decorrente responsável pela edificação dos valores tipicamente acreanos pisoteados historicamente pela oligarquia local.

Na trajetória de construção da CUT e do PT, muitas lideranças rurais foram forjadas, Wilson Pinheiro, Chico Mendes, Elias (todos assassinados), Osmarino, Raimundo de Barros, Júlio Barbosa, Nonato, Luizão etc. São alguns dos ícones revelados no caminho, o que atesta a inserção do PT no setor produtivo da economia onde mais se explicitara a contradição capital versus trabalho, de profundo apelo no imaginário petista.

As disputas eleitorais

Podemos dividir a performance do PT nas eleições em dois momentos complementares por assim dizer, ainda que os resultados pareçam referir-se a dois partidos distintos.

Na década de 80 o PT nacional adotou como estratégia lançar candidatos majoritários em todos os municípios e estados onde o partido estivesse organizado. O objetivo era dotar o PT de uma identidade ideológica e constituir-se num partido de caráter nacional. Os resultados eleitorais foram muito modestos, no entanto, o objetivo traçado foi plenamente alcançado. Os primeiros resultados eleitorais no Acre confirmaram a pouca densidade do partido, ao contrário do slogan utilizado em todo Brasil “trabalhador vota em trabalhador” prevalecera o oposto.

Já em 1982 no Acre, o PT lança nomes para todas as esferas da disputa eleitoral, sob a liderança de Nilson Mourão para governo e Abrahim Farhar (Lhé) para o senado. Nesta eleição o PT elegera seu primeiro deputado estadual, Ivan Melo que veio a ser expulso tempo depois por divergência. Nas eleições seguintes o partido continuou obtendo uma votação pífia com as candidaturas de Raimundo Cardoso para prefeito em 1985 e Hélio Pimenta em 1986 para governador. Só em 1988 o PT elegera seu primeiro parlamentar em Rio Branco, marina Silva vereadora, campeã de votos na ocasião.

O ano de 1989 foi um marco na vida do PT em todo o país. O memorável segundo turno Lula versus Collor veio consolidar o PT como partido competitivo eleitoralmente e cada vez mais apto a ocupar o poder. No Acre, o segundo turno de 89 antepondo dois adversários que expressaram a novidade na política, estimulou o debate interno do PT na busca local de algo similar para a disputa do governo na eleição de 1990. Foi nesse contexto que surgiu o nome Jorge Viana.

A conjuntura política da década de 80 fora marcada pelo avanço da UDR (União Democrática Ruralista) tendo como conseqüência os assassinatos de Ivair Higino e Chico Mendes em 1988, tendo, pra ser econômico, a omissão do Estado. Não satisfeitos, os fazendeiros da UDR lançaram em 1990, Rubem Branquinho, então deputado federal pelo (PL), para governador. Assinale-se, franco favorito no inicio da disputa: 44% contra apenas 2% de Jorge Viana.

Após 8 anos de governo do PMDB e de alguns escândalos, a população clamava por mudança, esta já assinalada pela surpreendente vitória de Kalume para prefeito da capital em 1988 com larga margem de votos, ressuscitando o velho PDS. Esses acontecimentos aqui resumidos explicam o leque de candidatos: Osmir Lima (PMDB); Edmundo Pinto (PDS); Rubem Branquinho (PL) e Jorge Viana (PT).

Mesmo não vencendo, o que de relevante se depreende da eleição de 90 fora a competitividade eleitoral do PT e a importância das alianças políticas, no caso em tela a criação da Frente Popular do Acre. Como resultado, a FPA elegera uma bancada de três deputados estaduais, todos marcadamente ideológicos. Marina e Nilson Mourão (PT) e Taboada (PCdoB). Com voz e qualidade no parlamento estadual o PT passou a ser referência da oposição em escala ampliada na sociedade.

A primeira vitória marcante para o Executivo ocorreu em 1992 com Jorge Viana eleito prefeito de Rio Branco. Na esteira do sucesso da campanha de 90, Viana era disparado o melhor nome a ser apresentado pela FPA. Sem nomes potentes, debilitados pela morte do governador Edmundo Pinto no início de 1991 e, tendo um governo sem credibilidade liderado por Romildo Magalhães os setores conservadores também pecaram por arrogância, saíram divididos lançando dois candidatos, a saber: José Bestene (PDS) e Mauri Sérgio (PMDB). Com isso Jorge Viana, já bastante conhecido, venceu por uma diferença de pouco mais de três mil votos do segundo colocado, Mauri Sérgio.

Em sua primeira experiência no executivo comandado pelo arrojo de Viana, o PT logo mostrou a que veio. Herdando uma prefeitura sem credibilidade e com sistemático boicote do governo estadual, a saída encontrada foi elaborar projetos para buscar recurso da União, muito trabalho e credibilidade. O resultado foi um enorme reconhecimento da população aos feitos da primeira experiência do PT e a consolidação de Jorge Viana como uma grande liderança no espectro político local. Mesmo sem eleger o sucessor, Marcos Afonso, ficara registrado no imaginário da população a idéia de que o PT não era só discurso…

Na metade do mandato da prefeitura em 1994, a eleição para governo revelara o lugar do PT no cenário político local. Mesmo sem ir ao segundo turno com Tião Viana candidato ao governo, o partido elegeu o primeiro parlamentar para um cargo no Congresso Nacional, Marina senadora. Mais uma vez campeã de votos numa disputa com cinco oponentes. Três conclusões podem ser apontadas até então: a primeira a decadência do PMDB, perdera o governo com Flaviano e Nabor não foi o mais votado para o senado como de costume; a segunda, mesmo vencendo a eleição o antigo PDS não colocou um de seus quadros orgânicos, fez uma inflexão em prol de Orlei Cameli, mais comerciante do que político e a terceira o PT contava com mais um líder nos seus quadros, Tião Viana.

Em 1998 após dois anos de preparação o PT e a FPA lançam Jorge Viana para governo do estado. Após um longo debate interno Tião Viana foi indicado como o nome de consenso do partido para o senado. Mesmo com o estatuto da reeleição o então governador, Orlei não aceitou concorrer novamente. Mesmo considerando o desgaste, seria um candidato mais competitivo do que Alécio Dias, o que não desfaz o mérito do PT e de seu candidato. A vitória de Jorge Viana no primeiro turno revelara a consolidação do PT como partido hegemônico do Acre e Jorge Viana como a maior liderança. Feito mais insofismável com a eleição de Tião Viana para o senado, com uma indiscutível vitoria sobre Flaviano.

Os dois primeiros anos da administração no governo foram marcados por altos e baixos. Muito trabalho e criatividade, mas as necessidades de muitas medidas duras para com bater os desmandos e a excessiva centralização da gestão levaram o PT a conhecer sua segunda derrota consecutiva na prefeitura da capital com Raimundo Angelim, mesmo ampliando o numero de prefeituras nos demais municípios de três para sete. Para muitos dirigentes do PT entre os quais me incluo a derrota de 2000 contribuiu com a vitória de 2002 dada a guinada, para melhor, que deram o governador e o governo.

A eleição de 2002 foi um acontecimento tão peculiar na historia política do Acre que merece uma enciclopédia inteira para conta-lá. Razão pela qual optei por resumi-la ao máximo ante a possibilidade de simplificação, tão comum nesses casos.

Após a vitória em 2000 com Flaviano Melo para a prefeitura da capital o MDA (Movimento Democrático Acreano), agrupamento de todos os partidos conservadores e da resistência contra o PT e a FPA, passou a crer na possibilidade real de vitória para o governo. O fato de ter obtido a maioria das prefeituras no interior, 12 a 10, incluindo os três maiores colégios, Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Sena Madureira, mesmo contra o governo, os fez acreditar numa linha imaginária de ascensão. Flaviano por ser a liderança mais proeminente, mais uma vez fora convidado a ser o nome de consenso para liderar a oposição ao PT.

Por sua vez nunca o PT e aliados se preparam com tanto profissionalismo quanto nesse período. Planejamento, cursos, seminário, pesquisas (quantitativa e qualitativa) e uma ação agressiva do trabalho jamais visto, deram o tom do que seria a eleição do Jorge Viana e Marina Silva. Vale dizer que numa reunião realizada no inicio de 2001 para avaliar os primeiros números, Marcos Coimbra do instituto Voxpopoli vaticinara que a vitória de Jorge era uma questão de tempo. A campanha de Lula pouco influiu no resultado local. A cassação de Jorge há uma mês da eleição foi um fator de mobilização inédito. Os eleitores se transformaram em militantes em sua maioria. Comícios e carreatas foram realizados na madrugada, a mídia nacional nunca noticiara tanto uma eleição no Acre. Ao final, uma vitória maiúscula ilustrada na maioria obtida pelo PT nos parlamentos e mais ainda na eleição de Geraldinho o segundo senador, este sem nenhuma expressão eleitoral.

Conclusão

O primeiro quarto de século do PT do Acre, requer uma coletânea de livros, autores e olhares coletivos para contar sua história, dado a quantidade e intensidade dos acontecimentos. Uma tentativa de conclusão e de inclusão de temas que passaram ao largo da narrativa sugere a indicação das razões do tamanho do PT no inicio de 2005. A democracia é uma marca do PT desde sua fundação. Sua recusa de ser um partido doutrinário o fez diferente da mesmice partidária do espectro ideológico nacional. No entanto, em vários momentos prevaleceu a luta interna das tendências em detrimento do avanço do partido na sociedade.

O PT acreano viveu a cultura de priorizar as tendências e a luta interna até 90, quando passou a ver o inimigo do lado de fora e a orientar sua conduta pela proposição, a interlocução com o diferente e muita ação em busca do propósito delineado por seus militantes. Portanto, um dos fatores do crescimento do partido no Acre fora sua unidade interna e com isso a criação da FPA. A cultura de reunião e formulação com pouca praticidade consagrou uma comunhão benigna mas faltava-lhe o tempero da resolução. Lacuna preenchida com o pragmatismo e o espírito executivo de Jorge Viana e seguidores a partir de 90.

Por fim, a hegemonia alcançada pelo PT e aliados terá maior longevidade se a unidade política obtida até aqui perdurar. Para isso me parece cada vez mais estratégico a definição da unidade em torno de um programa cujas marcas permitam que o denominemos de democrático-popular sem que seja apenas mais um jargão da esquerda. Continuar a busca incessante por um modelo de desenvolvimento compatível com a vocação natural da nossa região, que tenha no fator econômico uma condição indispensável para sua viabilidade, sem que este subordine os demais fatores igualmente importantes deve ser um desafio a ser perseguido. Revelar novas lideranças, utilizar todos os espaços e instituições que hora administramos para incluir econômica, política e socialmente as pessoas é o nosso objetivo e nos vincula com o que chamamos historicamente de socialismo.


Francisco Afonso Nepomuceno (carioca)
Professor de história (UFAC)
Assessor político do governo do Acre e dirigente do PT

Obs. O presente texto foi originalmente publicado em 2005, com vistas à comemoração dos 25 anos do PT.